Rondonópolis/MT,

O lado feio da perfeição

Não poderia ser outro nome: “Cisne negro”, filme do cineasta Darren Aronofsky, é uma narrativa sobre a busca doentia pela perfeição. Se, no conto original que inspirou Tchaikovsky na composição de o “Lago dos Cisnes”, o pássaro branco era confrontado com o pássaro negro – praticamente um símbolo daquilo que impede a felicidade -, no cinema a personagem vai, lentamente, dando força ao seu lado mais sombrio.
A platéia lotou, em parte porque cada um de nós carrega ao menos um traço semelhante, e a sombra que acompanha a procura do ideal maior pode deixar marcas profundas. Infelizmente, não somos perfeitos. Mas, há quem simplesmente não saiba lidar com isso.
Quando falamos em perfeccionismo, muitas vezes pensamos em algo positivo, em sinônimo de sucesso. Isso acontece porque acreditamos que o perfeito caminha para o êxito, mas nem sempre é bem assim. Procurar fazer o melhor é saudável, mas querer ser sempre perfeito torna-se um grande problema.

No dicionário, perfeccionismo é a "tendência obsessivamente exagerada para atingir a perfeição na realização de alguma coisa". Esse exagero e essa obsessão muitas vezes impedem o sucesso e o crescimento pessoal.


A psicóloga Valéria Lemos Palazzo explica que o perfeccionismo aparece como um jogo de pensamentos e de comportamentos de "autoderrota", com objetivos não realistas e excessivamente elevados.


"Estudos recentes mostraram que as atitudes perfeccionistas interferem realmente no sucesso. O desejo de ser perfeito pode transmitir a você um sentimento interno de satisfação pessoal. Porém, exteriormente ele pode realizar exatamente o oposto, e fazer com que você não consiga certas realizações tanto quanto as pessoas que têm expectativas mais realistas sobre si mesmas", destaca.


A psicóloga ressalta que a idéia de querer sempre atingir a perfeição acontece por uma busca da pessoa pela aprovação das outras, acreditando que isso só é possível com a perfeição.


"Isto pode deixá-la vulnerável e excessivamente sensível às opiniões e às criticas dos outros. Na tentativa de proteger-se de tal criticismo, você pode decidir que ser perfeito é sua única defesa", revela.


Pensamentos e sentimentos relacionados ao perfecionismo, segundo a psicóloga


- Medo de errar. Os perfeccionistas, freqüentemente, associam uma falha em conseguir seus objetivos como uma falta pessoal ou de valor.


- Os perfeccionistas comparam freqüentemente erros com falhas. Ao orientar suas vidas em razão de evitar erros, aos perfeccionistas faltam oportunidades de aprender e crescer.


- Medo da desaprovação. Se deixarem os outros verem suas falhas, os perfeccionistas temem, freqüentemente, não serem aceitos. Tentar ser perfeito é uma maneira de tentar proteger-se do criticismo, da rejeição, e da desaprovação.


- Pensamento definitivo. Os perfeccionistas acreditam freqüentemente que são "sem valor" se suas realizações não forem perfeitas. Os perfeccionistas têm dificuldade de enxergar as situações em perspectiva. Por exemplo: Um estudante que recebe uma nota "B" em vez de uma nota "A" pode acreditar: "Eu falhei" (o que se reflete em: "eu sou uma falha total").


- Superênfase nos "deveria". As vidas dos perfeccionistas são estruturadas, freqüentemente, por uma lista infinita de "deveria". Existem regras rígidas de como suas vidas devem ser conduzidas. Com superênfase nos "deveria", os perfeccionistas passam a controlar suas vidas através de regras, em vez de perceber o que realmente gostam e querem.


- Acreditando que o outro é facilmente bem-sucedido. Os perfeccionistas tendem a perceber que o sucesso dos outros é conseguido com um mínimo deo esforço, poucos erros, baixo stress emocional, e máxima autoconfiança. Ao mesmo tempo, vêem seus próprios esforços como ineficazes e inadequados.


Como mudar


Para mudar, é necessário ter como prioridade a satisfação pessoal e não ter em mente que o melhor para você é corresponder às expectativas de outras pessoas. "Os comportamentos saudáveis têm como foco o prazer no processo de perseguir uma tarefa, em vez de focalizá-la somente nos resultados finais", explica.


È necessário entender que errar é humano e que falhas acontecem. É importante também não se martirizar por causa de pequenos problemas e não sofrer por antecedência.


Algumas dicas da psicóloga são:


- Perceber que o perfeccionismo é indesejável e que a perfeição é uma ilusão inatingível.


- Tenha objetivos condizentes com a realidade, tendo sempre como base as suas próprias vontades e necessidades e levando em conta tudo o que você já realizou no passado. Isto permitirá você a aumentar a sua auto-estima.


- Dê pequenos passos. Pense nos seus objetivos de maneira seqüencial, mas sem rigidez.


- Pense que o mundo não termina quando você não é perfeito e que você pode conseguir muita coisa que deseja, sem a necessidade de ser 100% perfeita.


- Focalize no processo de fazer uma atividade e não apenas no resultado final.


- Use seus sentimentos de ansiedade e depressão como oportunidades para perguntar-se: "Eu tenho colocado expectativas impossíveis para mim mesma nesta situação?"


- Confronte os medos que podem estar atrás de seu perfeccionismo se perguntando: "O que mais me dá medo nesta situação? Qual é a pior coisa que poderia acontecer?"


- Reconheça que muitas coisas positivas somente podem ser aprendidas cometendo-se erros. Quando você cometer um erro, pergunte: "O que eu posso aprender desta experiência?"


- Evite o pensamento rígido em relação aos seus objetivos.


- Dê uma chance a si mesma e aos outros que estão ao seu lado; chance de descansar, de aproveitar a vida, de se divertir.


Fonte: Agência Unipress Internacional - iG