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Rondonópolis/MT,

Crendices que condenam

A má fama dos bichos é injusta, mas resiste ao tempo.
Lendas sobre aves que dão azar, corujas que anunciam mortes, sapos que fazem bruxarias, morcegos que se transformam em vampiros, às vezes são maneiras poéticas de explicar o comportamento dos bichos.

Mas também podem prejudicá-los e ao equilíbrio ecológico, na medida em que algumas espécies passam a ser desprezadas, temidas, caçadas ou exterminadas em função do preconceito derivado dos mitos e crendices.

"Recebemos vários chamados de pessoas que querem retirar as corujas do telhado, por causa dessas crenças", afirma Ricardo José Garcia Pereira, consultor de aves do Zoológico de São Paulo.

Cobras, sapos e pererecas também são sistematicamente eliminados. O Instituto Butantan coleciona pedidos de resgate, com todo tipo de exagero quanto ao risco de proximidade das pessoas com esses animais.

Entre os invertebrados, então, o medo deflagra verdadeiros massacres de aranhas e escorpiões, para citar apenas dois exemplos.

A convivência de homens e animais é muito estreita, desde tempos imemoriais. Mas a vida em comunidade e, sobretudo, a urbanização moderna interferiram nessa relação.

"Os bichos começaram a perder a sua posição e se tornaram vítimas da manipulação humana e da superstição", diz Maria do Rosário Tavares de Lima, folclorista.

As águias e os gaviões, por exemplo, são símbolos de poder, quase sempre tão odiados e temidos quanto os mais cruéis imperadores. Seu olhar, majestoso e severo, em muitos casos é interpretado como maléfico.

As corujas são tidas como agourentas, embora na mitologia greco-romana estejam associadas à deusa Minerva ou Atena, simbolizando a sabedoria e o dom da clarividência.

Na Europa, as corujas eram vistas como bruxas e, para espantar o mal que supostamente pudessem causar, eram amarradas em árvores, pelos pés, e assim abandonadas para morrer.

No norte do Brasil, para alguns, elas representam sorte. Para outros, trata-se de almas humanas castigadas pelo mal que fizeram, condenadas a vagar pelas florestas na forma animal, sem que ninguém ouse delas se aproximar ou cruzar seu caminho, caso do murucututu (Pulsatrix perspicillata).

Dentre as 19 espécies de corujas brasileiras, uma das mais conhecidas é a suindara (foto) ou rasga-mortalha (Tyto alba). Segundo Luís da Câmara Cascudo, a crença popular é a de que, ao voar sobre uma casa ou pousar em seu telhado, ela anuncia a morte de alguém que vive ali.

O nome rasga-mortalha deve-se ao seu grito característico. O vôo é silencioso. As corujas amedrontam pelos seus gritos e olhares fixos. Mas quem pensa que ela faz isso para assustar, se engana.

 “O grito da suindara, que é dos mais assustadores, tem um motivo: avisar o companheiro para proteger os ninhos e espantar os intrusos", relata Garcia Pereira, do Zôo de São Paulo.

Outro mito é o de sua visão aguçada. As corujas noturnas caçam à noite e têm sensibilidade à luz, mas não enxergam bem: durante as caçadas orientam-se pela audição, essa sim, apuradíssima.

 “Elas possuem olhos grandes, como lunetas com um osso ao meio. Isso dificulta a visão periférica. Para compensar, ela gira a cabeça em aproximadamente 270 graus", explica o especialista.

E quem quer se livrar delas é bom pensar duas vezes nas conseqüências. "Elas são ratoeiras sobre asas", acrescenta Garcia Pereira.

 “Consomem em média 3 a 4 camundongos por dia, um grande favor que prestam nos centros urbanos e nas áreas agrícolas".

A fama de agourentos também acompanha os urubus, cuja presença se acredita ser prenúncio de morte.

No Brasil, as espécies mais comuns são o urubu-preto (Coragyps atratus) e o urubu-da-cabeça-vermelha (Cathartes aura). "A chance de encontrarem carniças está em torno de 30%, portanto é comum os urubus fazerem jejum de 3 dias", observa Garcia Pereira.

O papo dessas aves, bem elástico, é adequado para receber grandes quantidades de comida de uma só vez, como uma compensação pelos períodos de jejum, ainda que hoje, com os lixões das cidades, sua alimentação tenha ficado mais fácil.

Como comem carniça, os urubus têm um suco gástrico extremamente eficiente, capaz de eliminar bactérias e vírus.

Por isso raramente adoecem devido a alguma refeição. Sua função ecológica, portanto, é fundamental: eles são os lixeiros e higienizadores do mundo animal.

A aparência repulsiva dos urubus é uma adaptação ao seu tipo de vida. "Eles são desprovidos de penas na cabeça para não acumularem sujeiras quando se alimentam de carniça", elucida o especialista do Zôo.

Para algumas etnias indígenas, a história da cabeça pelada é outra. Eles contam que uma moça à procura de marido bateu na porta do urubu, mas fugiu com o gavião. As aves brigaram e o urubu ferido lavou a cabeça com a água tão quente que a depenou.

O urubu-rei ou urubutinga (Sarcoramphus papa), é admirado por voar muito alto. Acreditam alguns indígenas que ele voa acima das nuvens, por isso as flechas com suas penas não erram o alvo.

"Como é maior, mais forte e territorial, quando ele chega todos os urubus se afastam", diz Garcia Pereira, explicando porque é chamado de rei.

Ao pousar em meio a um grupo de urubus, ele abre a carniça, come e vai embora. E só então os outros chegam perto do alimento.

Entre os répteis, a pior reputação é a das serpentes, associadas a demônios desde a Antiguidade. Elas impressionam pela pele fria, escamada e pela existência de espécies peçonhentas. Uma das lendas mais conhecidas é a das "cobras que mamam".

Algumas pessoas acreditam que, ao perceber uma mulher grávida ou que tenha dado à luz recentemente, a serpente se aproxima e suga-lhe o leite, enganando o bebê com a ponta do rabo.

 “As cobras não são mamíferos, não possuem mamas, nem têm línguas que se adaptem à sucção, não desenvolveram esse mecanismo", enfatiza Luiz Roberto Francisco, biólogo da Zootec, empresa de tecnologia animal.

Além disso, seus dentes são extremamente afiados e pontiagudos, e causariam lacerações no seio, caso tentassem mamar.

Existe ainda a crença que as cobras hipnotizam suas vítimas. Na verdade, as serpentes apresentam pálpebras transparentes e soldadas entre si, por isso o olhar parece fixo, "hipnótico".

No caso das peçonhentas, o veneno pode imobilizar rapidamente as presas, dando a impressão de que estão "hipnotizadas", quando estão sob efeito do veneno.

"Na aproximação de uma serpente peçonhenta, também é comum as presas permanecerem imóveis para que o predador não as veja, então podem parecer 'hipnotizadas' ", explica Francisco.

Em todo o país, a dificuldade de distinguir serpentes peçonhentas das não peçonhentas; o desconhecimento quanto aos hábitos das serpentes; o medo do veneno e da surpresa em meio a trilhas, picadas ou na lida agrícola, levam os homens a matar toda e qualquer cobra que cruze seu caminho.

Frequentemente o animal morto é exposto em cercas, como um troféu. Este hábito também é devido ao fato de que as costelas das serpentes mortas e em decomposição podem causar ferimentos e infecções, quando pisadas.

No entanto, como as corujas, as cobras são grandes predadoras de ratos e a redução de sua população numa determinada localidade também significará o aumento da população de pequenos roedores.

A sentença de morte pelo preconceito persegue igualmente os sapos e as pererecas. As pererecas, quando se aproximam demais.

Às vezes moram dentro das casas, preferencialmente nos banheiros, locais úmidos. Seus saltos inesperados assustam e geram incidentes engraçados, porém não raro terminam em vassouradas.

Já os sapos são tratados ora como ingredientes de feitiços, ora como seres ameaçadores, capazes de espirrar veneno nas pessoas ou nos cães, crendice absolutamente infundada.

O veneno existe, produzido nas duas glândulas que se destacam atrás dos olhos, "no entanto só é liberado quando as glândulas são pressionadas, por uma mordida, por exemplo. O sapo não tem como espirrar nada", assegura Luiz Roberto Francisco.

O problema real do sapo é sua aparência. O aspecto desagradável da pele enrugada parece imperdoável aos olhos dos homens.

As espécies mais comum no imaginário popular são os cururus (Bufo marinus e B. schneideri), as maiores espécies do gênero Bufo no Brasil, podendo a fêmea atingir até 25 cm de comprimento.

É um animal robusto, dotado de pele grossa, glandular e abriga-se em covas rasas, embaixo de madeiras e troncos, saindo ao crepúsculo para se alimentar.

Como os 'colegas' mal afamados, na verdade, os sapos e pererecas são extremamente úteis por se alimentarem de uma grande variedade e quantidade de insetos, aranhas, escorpiões e até de pequenos vertebrados, como camundongos.

 “Não basta apenas preservá-los, é preciso conservar os lugares onde habitam", ressalta o especialista da Zootec.

E se os sapos e pererecas são vítimas de preconceito, que dizer dos escorpiões? Quando um deles aparece, ninguém quer saber se estão entre os invertebrados mais antigos e bem sucedidos do mundo, com 400 milhões de anos de evolução nas costas.

A prática é eliminar, mesmo que das 1500 espécies conhecidas, só 20 possuam veneno suficiente para derrubar um homem. O veneno é uma neurotoxina, capaz de causar uma dor terrível no local da picada.

No Brasil, existem duas espécies efetivamente perigosas: o Tytius serrulatus, que é amarelo e possui uma serrilha na cauda, e o Tytius bahiensis, marrom escuro.

Ambos se aproximam do homem porque esse lhe fornece abrigo - em entulhos secos ou em meio a pilhas de tijolos e outros materiais de construção - e comida farta: baratas!

Prevenir o aparecimento de escorpiões, portanto, é sinônimo de cuidar do lixo e de 'tranqueiras' acumuladas.

O maior escorpião catalogado em todo o mundo vive na África Equatorial e se chama Pandinus imperator.

Além do tamanho, a cor negra assusta, porém o veneno é potente apenas na caça a suas presas, entre as quais estão lagartixas, ratos e baratas.

Mesmo assim, quando um desses é localizado, os africanos o matam a pauladas e queimam seu corpo, pois acreditam que, uma vez morto, ele se fragmenta em dezenas de outros escorpiões.

Essa idéia provavelmente derivou do fato de a fêmea carregar seus filhotes no dorso durante cerca de duas semanas, até que ganhem independência.

Outro mito diz respeito ao 'hábito' do escorpião se suicidar com o próprio veneno, quando cercado pelo fogo.

O seu aguilhão, na realidade, não tem força suficiente para perfurar o dorso, além de o escorpião ser imune ao próprio veneno. O bicho não resiste mesmo é às altas temperaturas.

Ao lado dos escorpiões, as aranhas também mobilizam exterminadores de plantão. Embora exista uma crença antiga, segundo a qual destruir uma teia de aranha pode trazer muita infelicidade, elas são sistematicamente perseguidas.

A crença vem da Bíblia cristã, cujo texto diz que Nossa Senhora, José e o menino Jesus saíram do Egito e se esconderam em uma gruta, usando as teias como proteção contra os soldados.

No Brasil existem 4.400 espécies de aranhas descritas. E nenhuma delas persegue as pessoas. Elas só conseguem ver claro e escuro, então "guiam-se pela vibração e percepção de cheiros e tato", explica Hilton Ferreira Japyassu, especialista em aranhas do Instituto Butantan de São Paulo.

Suas teias são tecidas com cuidado porque servem para capturar presas e sinalizar ao macho a presença da fêmea.

 “Enquanto jovens, machos e fêmeas as tecem. Adultos, os machos não fazem mais teias e então ficam sem alimentos e têm a vida mais curta", diz.

Mas há aranhas que não fazem teias e, entre elas, uma das mais famosas é a tarântula, da família Lycosidae.

Contam as lendas européias do século 18 que as pessoas picadas por ela dançavam para espalhar o veneno, de onde teria surgido a dança italiana tarantela.

Mas o mais provável é que a dança tenha se originado da ingestão de fungos tóxicos. "As tarântulas não possuem um veneno tão forte", garante o especialista do Butantan. Outra famosa é a viúva-negra (Latrodectus mactans), que não existe no Brasil.

Aqui ocorre apenas uma 'parente' sua, do mesmo gênero, a Latrodectus geometricus. A viúva-negra é conhecida por matar seu parceiro após a cópula.

"Ele é que se oferece como jantar, pois alimentar a fêmea significa abastecer a prole", esclarece Japyassu. 

"Mas o macho só fará isso quando estiver no fim de sua vida reprodutiva".
Não seria possível encerrar qualquer texto sobre mitos animais sem mencionar os morcegos, cuja aparência estranha é igualmente vinculada a demônios e bruxas.

Na Europa, como as corujas, os morcegos também eram pregados vivos, para afastar malefícios. E a situação não ficou melhor quando os escritores o adotaram como tema de literatura de suspense, espalhando a fama de vampiro chupador de sangue e morto-vivo.

No mundo real, das quase 1000 espécies de morcegos conhecidas, apenas três são de hematófagos, que se alimentam de sangue. São pequenos - cerca de 10 cm - e vivem na América do Sul.

Uma dessas espécies é a Desmodus rotundus, que ataca mamíferos e lambe (não suga) algo em torno de 15 a 20 ml de sangue por noite.

A grande maioria das espécies, no entanto, é de morcegos beija-flores, polinizadores, pescadores, comedores de insetos, de frutos, dispersores de sementes, todos com funções muito importantes para o equilíbrio dos ecossistemas.

Os insetívoros, em especial, são responsáveis pelo controle de muitos insetos que perturbam o homem. É o caso do morceguinho-preto (Myotis nigricans), espécie comum em todo o Brasil, que costuma se abrigar dentro das casas, atrás de quadros, venezianas e outros cantos, alimentando-se de mosquitos e traças, quando sai à noite para caçar.

No Brasil, há quem acredite que o morcego é um rato velho transformado. "Impossível, o rato pertence a uma ordem e o morcego a outra", rebate Mário De Vivo, do Museu de Zoologia de São Paulo.

Também chamados de andirá, guairuçu, guandira, os morcegos são os únicos mamíferos voadores e têm uma visão adaptada para a vida noturna (não são cegos), enxergando em preto e branco.

Seu sofisticado sistema de eco localização já inspirou muitas pesquisas em tecnologia em ponta. "Eles possuem uma espécie de radar, que emite um som de alta freqüência capaz de bater nos obstáculos e voltar rapidamente para o morcego, a tempo dele desviar em pleno vôo", comenta Dvivo.

E esclarece que um de seus hábitos esquisitos - ficar de ponta cabeça - é só uma maneira de facilitar o vôo, pois a transformação de seus membros superiores em asas dificultou a posição ereta.


Pose 'devota'

As 'mãos' postas, numa atitude de oração, o corpo ereto, a cabeça triangular e os olhos grandes conferiram fama de beato ao louva-a-deus, inseto da Ordem Mantodea, também chamado bendito, cavalinho-de-nosso-senhor e põe-a-mesa.

Muitas culturas o consagraram, graças à pose reverente, interpretada como se tivesse algo de humano, numa indicação de que a mitificação excessivamente positiva também ocorre. Algumas etnias africanas o consideram uma reencarnação dos mortos.

Na Amazônia dizem que adivinha o sexo do bebê, durante a gestação. Se, ao assoprar na sua direção, ele mover as pernas dianteiras é menina, se tentar saltar é menino.

Para os especialistas, o louva-a-deus é um dos mais especializados entre os insetos, com articulações sofisticadas, como as que permitem seus movimentos de cabeça.

É carnívoro e, portanto, está no topo da cadeia alimentar, no universo dos insetos. "Apesar de seu jeito de 'santo', o louva-a-deus é bastante agressivo, sem contar que as fêmeas têm o 'péssimo hábito' de devorar os machos após a fecundação", relata Nelson Papavero, entomólogo do Museu de Zoologia de São Paulo e autor do livro Os insetos no folclore, Editora Plêiade, junto com Karol Lenko.

Fonte: Terra da Gente