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Rondonópolis/MT,

Amélias modernas

Desde que o mundo é mundo, boa parte das mulheres lutam para conseguir um lugar de destaque no mercado de trabalho, serem respeitadas como mães e profissionais e terem os mesmos direitos que os homens. Depois do marco feminista dos anos 70, muitas coisas mudaram em relação ao feminismo e a opinião sobre elas mesmas.

A revista americana "New York" publicou uma matéria polêmica com o nome de "The feminist housewife" (A dona de casa feminista), e casou alvoroço no mundo feminino. Será que realmente as mulheres que lutaram e queimaram os sutiãs decidiram ser donas de casa novamente?

A ideia de abrir mão de uma carreira de sucesso e da independência financeira e se dedicar exclusivamente à casa e à criação dos filhos deixa algumas feministas perplexas. A psicóloga Cecília Russo Troiano acredita que essas mulheres que largam o trabalho não podem ser consideradas donas de casa. "Acho que esse termo ficou para trás. Mesmo as que largam a carreira voltam para casa de um jeito diferente, muito distante daquela figura da dona de casa que caracterizava a geração anterior. Ela retorna para casa, mas faz mil outras coisas além de ser apenas ‘dona de casa’."

Nem todas as mulheres abandonam totalmente a carreira, algumas optam por trabalhar em casa. Além de ter uma maior comodidade, ficam mais próximas dos filhos. Cecília lembra que muitas fazem freelancers, vendem coisas, adotam o home office. Elas retornam algumas vezes de forma temporária, por conta da idade dos filhos, alguma questão específica de alguém da família (doença, por exemplo, ou filho indo mal na escola).

"Creio que as mulheres aderem a esse movimento porque definem outra prioridade - pode ser porque o trabalho estava exigindo demais, porque sentia culpa excessiva por estar longe dos filhos ou porque o salário não compensava."

A psicóloga acredita que abrir mão da carreira é uma questão que envolve as prioridades pessoais. Para algumas mulheres, compatibilizar tarefas é algo penoso e aí ela acaba escolhendo, mesmo que por um tempo, um dos "pratinhos" da vida de equilibrista. "Ter ou não apoio do marido na divisão das tarefas é o que leva algumas mulheres a largar a carreira. Sem o apoio é muito mais difícil essa compatibilização. Até a distância casa-trabalho leva algumas mulheres a abrir mão da carreira."

Amélias modernas

Os compositores Mário Lago e Ataulfo Alves escreveram nos anos 40 que mulher de verdade era aquela que tudo suportava, desde a geladeira vazia até a traição do marido, achando tudo lindo. Aquele tempo passou, e as "amélias" se modernizaram. O salto alto as deixaram mais altas e seguras, a roupa social sugere o trabalho árduo, mesclando casa e escritório, e a versatilidade para comprovar a eficiência feminina em qualquer lugar.

Cecília conta que as mudanças das mulheres são fases: "Uma amiga minha, após três filhos, decidiu sair de uma empresa onde era funcionária. Depois de um tempo, iniciou carreira empreendedora, sendo hoje dona de um site de comércio eletrônico."

As mulheres do pós-feminismo estão em constante transformação, mas não podem ser comparadas com as antigas e caladas amélias que se submetiam a todas as ordens do marido. Boa parte das mulheres que escolhe largar o trabalho fora de casa alega a falta de ajuda dos maridos. "Tem marido que é companheiro e apoia nas tarefas domésticas, aí a vida de equilibrista é mais suave. Se tudo fica apenas com a mulher a sobrecarga é maior e isso pode detonar a ruptura", diz Cecília.

Nem todas as mulheres podem tomar essa decisão. Em um mundo repleto de consumismos, não ter dinheiro para ajudar nos gastos financeiros da família pode pesar e muito. "A inquietação acomete a todas, mas nem todas podem deixar o salário de lado. Há sim maior incidência desse fenômeno entre mulheres em cargos mais altos e com renda mais alta, analisa a psicóloga."

Fonte: Vilamulher por Thaís Santos (MBPress)
Foto: Randy Faris/Corbis